Ao lermos a Bíblia, percebemos que ela possui um enredo central, uma história maior acerca da qual cada um dos 66 livros fornece preciosas considerações. Essa história revela um Deus criador do universo e tudo o que nele há, que criou o homem para amá-lo e ser amado por Ele, um Deus que elaborou os meios para que esse relacionamento pudesse ter sucesso, apesar dos defeitos e erros da outra parte.

Em linhas gerais, a Bíblia conta a história de um Deus amoroso e convida o leitor a conhecer e relacionar-se com Ele. Resumidamente, o evangelho é a boa notícia do amor desse Deus, um amor tão grande ao ponto de entregar o seu único filho para morrer em prol da salvação da humanidade.

De acordo com o registrado em Romanos 5.8, “[…] Deus demonstra seu amor por nós: Cristo morreu em nosso favor quando ainda éramos pecadores”. Sem dúvida o Deus da Bíblia é um Deus de amor, na verdade, de acordo com a primeira carta do apóstolo João, Deus não só ama, como é o próprio amor.

O entendimento acerca da trindade contribui para esse assunto, uma vez que a ideia de que Deus é amor é algo mais compreensível a partir desse conhecimento, tendo em vista que, para haver amor é necessário existir tanto a fonte do amor como o alvo desse amor, assim, o fato do Senhor “ser amor” faz mais sentido quando se tem conhecimento de que Ele é trino, pois, como Deus (e somente Ele) é eterno, no princípio de tudo, apenas Ele existia e desde então já era amor, assim, Ele teria que ser tanto a fonte como o alvo do amor.

Amar é um mandamento

Uma vez entendido que Deus é amor, é necessário perceber que Ele espera a mesma atitude de seus filhos. Jesus, ao ser interrogado por religiosos de seu tempo acerca de qual seria o maior mandamento da lei (deixada por Deus através de Moisés), respondeu da seguinte forma:

[…]’Ame o Senhor, o seu Deus de todo o seu coração, de toda a sua alma e de todo o seu entendimento.’ Este é o primeiro e maior mandamento. E o segundo é semelhante a ele: ‘Ame o seu próximo como a si mesmo’ . Destes dois mandamentos dependem toda a Lei e os Profetas’” (Mateus 22.37-40).

O Mestre foi claro e direto, o amor é algo esperado e necessário aos seus seguidores. O amor é um mandamento.

Um novo mandamento dou a vocês: Amem-se uns aos outros. Como eu os amei, vocês devem amar-se uns aos outros.”(João: 13.34)

O apóstolo João reforça que é impossível conhecer a Deus e não amar.

Amados, amemos uns aos outros, pois o amor procede de Deus, Aquele que ama é nascido de Deus e conhece a Deus. Quem não ama não conhece a Deus, porque Deus é amor.” (1 João: 4.7 e 8)

Amar é fruto de uma decisão individual

Muitas pessoas veem o amor como uma emoção que inesperadamente surge e sobre a qual não se há o menor controle, contudo, a ordenança do Senhor Jesus acerca do amor a Deus e ao próximo só faz sentido se o amor for fruto de uma decisão.

Como amar poderia ser um mandamento se não fosse algo sobre o que se pudesse ter algum controle? Se assim fosse, não seria justo, pois, em nada dependeria do indivíduo obedecer ou não a essa ordenança, muito menos ao mandamento de amar ao inimigo.

Mas eu digo: Amem os seus inimigos e orem por aqueles que os perseguem, para que vocês venham a ser filhos de seu Pai que está nos céus. Porque Ele faz raiar o seu sol sobre maus e bons e derrama chuva sobre justos e injustos.” (Mateus 5.44,45)

É importante atentar para uma questão. Embora o amor seja um mandamento e fruto de uma decisão, é importante perceber que essa decisão é individual. Essa é uma característica forte do evangelho: só é possível segui-lo voluntariamente. Amar, assim como vários outros mandamentos, só ocorre de forma sincera. Ao fingir que ama você não obedece a esse mandamento.

Na verdade a possibilidade da escolha é um pré-requisito para o amor, pois o amor só existe se houver a possibilidade de não amar. É impossível alguém amar sem decidir em seu interior fazê-lo, pois, o amor é algo interno e individual. É possível ordenar alguém que ame a outro, contudo, o máximo que se consegue sem o consentimento dessa pessoa é que ela aja como alguém que ama, mas, o amor autêntico não pode ser forçado, precisa ser decidido e escolhido por cada indivíduo. Entende-se assim o princípio do livre arbítrio, só seria possível amar ao Senhor, como também obedecê-lo, se Ele desse a opção de não fazê-lo. Ele forneceu o direito de escolha desejoso que seus filhos optem por amar como Ele amou.

Amar é agir

Como Deus amou? De forma prática! O amor de Deus não fica limitado ao âmbito ideológico, ele é prático. As atitudes dEle reforçam que Ele nos ama. Conforme citado anteriormente, o apóstolo Paulo afirma que o amor de Deus é provado através da morte de Cristo. Trata-se de um amor incondicional e com alta entrega, ao refletir sobre isso, o escritor da carta aos romanos declara:

Aquele que não poupou seu próprio Filho, mas o entregou por todos nós, como não nos dará com Ele, e de graça, todas as coisas?” (Romanos: 8.32)

Percebe-se que Paulo entendia que o amor de Deus é imensurável, na carta aos coríntios ele reconhece a intensidade desse amor quando diz:

Pois o amor de Cristo nos constrange[…]”(2 Coríntios 5.14)

Com toda a certeza o amor do Pai é constrangedor, ele independe de contrapartida e de merecimento. Pode-se ter a certeza de que Deus ama a todo o ser humano, não há pré-requisito para isso e não há variação. Deus ama a todos com a mesma intensidade. O Senhor deseja que esse exemplo seja seguido, que o amor dEle invada as vidas e seja exercitado e praticado a todo instante por aqueles que o servem, Ele espera que seus seguidores amem como Ele ama. Os versículos a seguir explanam sobre a necessidade de atitudes que reflitam a fé em um Deus que é amor:

“Nisto conhecemos o que é o amor: Jesus Cristo deu a sua vida por nós, e devemos dar a nossa vida por nossos irmãos. Se alguém tiver recursos materiais e, vendo seu irmão em necessidade, não se compadecer dele, como pode permanecer nele o amor de Deus? Filhinhos, não amemos de palavra nem de boca, mas em ação e em verdade.” (1 João 3.16-18)

Se um irmão ou uma irmã estiver necessitando de roupas e do alimento de cada dia e um de vocês lhe disse: ‘Vá em paz, aqueça-se e alimente-se até satisfazer-se’, sem porém lhe dar nada, de que adianta isso? Assim também a fé, por si só, se não for acompanhada de obras, está morta.”(Tiago 2.15-17)

Tratar do amor no campo das ideias e de forma teórica pode ter algum proveito, contudo, não se compara ao amor em ação. O Senhor deseja um amor atuante, que reage diante da necessidade do próximo, que está disposto inclusive a morrer pelos seus irmãos. O apóstolo Tiago ressalta que “A religião que Deus, o nosso Pai, aceita como pura e imaculada é esta: cuidar dos órfãos e das viúvas em suas dificuldades e não se deixar corromper pelo mundo”(Tiago: 1.27). Na mesma carta o apóstolo adverte “Portanto, pensem nisto: Quem sabe que deve fazer o bem e não o faz comete pecado” (Tiago: 4.17).

As muitas passagens das escrituras acerca do amor prático é mais uma evidência da sua grande importância. Ao falar aos seus discípulos sobre o julgamento que fará, Jesus declara:

Quando o Filho do homem vier em sua glória, com todos os anjos, Ele se assentará em seu trono na glória celestial. Todas as nações serão reunidas diante dEle, e Ele separará uma das outras como o pastor separa as ovelhas dos bodes. E colocará as ovelhas à sua direita e os bodes à sua esquerda. Então o Rei dirá aos que estiverem à sua direita: ”’Venham, benditos de meu Pai! Recebam como herança o Reino que foi preparado para vocês desde a criação do mundo. Pois eu tive fome, e vocês me deram de comer, tive sede, e vocês me deram de beber; fui estrangeiro, e vocês me acolheram; necessitei de roupas, e vocês me vestiram; estive enfermo, e vocês cuidaram de mim; estive preso, e vocês me visitaram.’” (Mateus: 25.31-36)

O texto ainda continua narrando que os justos perguntam ao Rei quando foi que eles fizeram isso. O Rei responde “[…] Digo a verdade: O que vocês fizeram a algum dos meus menores irmãos, a mim o fizeram.” (Mateus: 25.40)

Amar revela Cristo

O pastor Jabes Alencar (fundador da Assembléia de Deus do Bom Retiro) costumava encerrar o seu programa de TV com a seguinte frase: “O amor é o cartão de identidade do cristão”. Essa sentença, embora simples, ressalta aquilo que a Bíblia explicitamente declara quando o Senhor Jesus, em conversa com os seus discípulos, afirmou “Com isso todos saberão que vocês são meus discípulos, se vocês se amarem uns aos outros” (João 13.35). O amor é tão evidente em Cristo que, enquanto esteve na terra refletiu isso de tal modo (na sua convivência com as pessoas, na sua maneira de perdoar, de se compadecer, em fim, na sua vida) que as pessoas reconheceriam (e reconhecem/reconhecerão) os seus seguidores pela mesma atitude. Uma vez que o Deus da Bíblia é amor, seria difícil imaginar algo diferente dos seus filhos.

Em uma sociedade individualista e muitas vezes indiferente é necessário que os discípulos de Jesus sejam o sal da terra e a luz do mundo citados pelo Mestre. Não tomando a forma desse mundo, mas vivendo o evangelho de Cristo, amando a Deus, ao próximo, revelando e glorificando a Jesus.

Conclusão

No livro “Qual a tua obra?”, Mario Sergio Cortella relata uma triste experiência que viveu e através da qual pôde perceber que a sociedade acabou por aceitar situações inaceitáveis. No livro, ele descreve a cena em que, em uma feira, onde haviam várias bancas repletas de verduras, frutas e legumes de ótima qualidade, uma criança recolhe do chão verduras estragadas e sujas. Infelizmente cenas assim são comuns e aceitas como normais. Não seriam aceitas por Jesus, Ele se preocupava com a fome do povo e espera que nós façamos o mesmo.

A observância dos mandamentos de Cristo é uma decisão totalmente individual e voluntária. Em um mundo tão desigual, injusto e indiferente, o amor característico de um seguidor de Jesus Cristo é cada vez mais necessário. Siga a Cristo, ame como Cristo!

Referências

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